janeiro 26, 2012

E o que ficou do meu medo?
Do teu grito de silêncio?
Um pouco de preto
no preto?
Um pouco de branco
no peito?

Pois se diz
que de tudo fica um pouco
um pouco de cinza do cigarro
de luz no cabelo
um pouco de Rosa
um pouco de cheiro

De tudo fica um pouco,
em tudo que é tão pouco.

Na brisa da madrugada
na flor e no espinho
nas tuas pernas incertas
nos meus beijos
nos meus olhos
na tua sombra
no frasco.

..

janeiro 26, 2012

Me aparece. Numa madrugada ou outra, me pertuba. Na Rosa. Tomara. Na música de saída. Nas fotos que não dizem nada. E nas que nunca foram ditas. Que me lembram. De um café. De uma mão. Do nada. A falta de qualquer coisa.

E me encanta o perfume, que agora tão longe se faz tão diferente. No mesmo cheiro procuro aquele que foste teu. Que não é mais.

Me vejo numa porta. Luz vermelha. Luar. Cara estranho. O ar de paz que me falta. O nada. Que me trazia tudo.

Que falta me faz.

.

janeiro 26, 2012

Interessante. Nada de interessante que me perca num segundo.Num momento que empurre tudo de não interessante do dia. E me surge inteiro numa turbulenta monotonia. Inesquecível. Pois se fosse interessante, não me lembraria. Não me apaixonaria.

junho 13, 2011

Escorro minhas palavras
entre os vãos
que tecestes meu abrigo;
nos vazios em que perco a ti,
à minha voz e ao meu fogo
que procuro ainda fora de mim.

Busco para saber como te buscar,
te guardar
nas minhas palavras cheias de ti,
nos meus gestos que são seus.

Não vejo nos pêssegos
a tua pele de crepúsculo,
nem sinto nas flores
o teu perfume de ocaso.
Da minha visão e olfato
abro mão neste caminho
de horizonte
tão finito e distante
que, de tão dentro,
se faz tão longe
desse pranto
que vem do seco
de um pranto árido
como amar o mar

Busco em mim
o que busco em ti,
com meus versos
que não são meus,
e com pensamentos
que que sofrem
a dor dos deuses,
que, a mim, concedem
essa mesma dor.

março 21, 2011

          Ah, amor. Por quanto tempo te amei sem saber quem era. Te toquei como toco as estrelas nas noites companheiras. Quantas vezes te procurei nas lembranças das coisas que nunca vi- pois ainda não me surgira. Mas quem sabe fossem só as flores que eu adorava, ou as músicas que tocavam o vazio d’alma.  Mesmo assim, eu já te amava. Amor vivo, sincero, como sentimento não dito. Mas eis que me surges, soberana, e me reges como a lua rege as marés. Arrancaste o amor que dentro de mim cultivava, e tornou-o mais vivo. Mas vida não se mede, como meço minha ignorância, pois não posso mais chamar de amor. Seria como chamar de felicidade o que eu sentia, ou sossego o que pensava ter encontrado. Não, amor, amor era o que sentia antes de saber de ti. Agora não és nem parte de mim. Sou parte de ti. É so o que sei dizer. O resto, amor, fica por conta do sublime.

Lá do outro lado

março 21, 2011

          Tua lembrança vem como vai o dia, na noite escura como teus cabelos. Que vontade de contar teus cabelos, tocá-los com os dedos que tentam brincar nessa neve branca. Mas morena é a felicidade, como teu corpo. E quente, como teu sorriso, que roubo para arrancar-te um beijo. Rasgado, ralado, rachado, agarrado molhado sossego. Como preciso do teu sossego, meu sossego. Ir por ai como viria uma brisa quente. Dormir como a lua dorme com a noite, com teus pés gelados à procura dos meus. Segurar teu corpo contra o meu com a fúria desse inverno e fazer o amor deitar ao meu lado. Pois faze-lo lembrar o próprio nome não é o bastante. É pouco, solitário – pobre – como os cabelos espalhados na minha cama.

Não me esqueça

outubro 25, 2010

Corro pego faço
me amasso
nos cigarros que tem o maço
vazio
na esperança corro o traço
do vaso de que me desfaço
desfaleço:
no vazio do vaso
e vazio do preço.
Então peço
um vaso que venha cheio
de qualquer coisa
que não seja pó ou preço.

Mas eu esqueço
que pelo vaso não tenho apreço
e corre o dia quando corro a via,
pra me jogar de coração cheio
de amor pra minha amada
da qual também esqueço
de que não mereço.

julho 10, 2010

               No canto do olho. Esperança. E de canto eu olho com meu olho que canta. Canta fome, canta sede. Canta o canto da esperança, que sente. Saudade. Saudade do seu canto, no meu canto nós dois. Fome da sua pele. Sede da sua presença. De alguns meses. E jogo os meses na mesa porque eu não canto o tempo. Não quando canto esperança. Não quando canto amor.

Em meus braços

junho 10, 2010

               Que venha o burbúrio do mundo ou o sussurro da morte. Venha e fique à vontade porque não vou perceber. Eu só escuto o silêncio da tua voz e o estrondo do teu suspiro. Em meu suspiro. Pesado como os teus cabelos caindo sobre meus ombros e acariciando meu peito. Dentro e fora… Te abraço forte esmagando meu corpo ao teu, com a esperança de se fazer trocar um cílio da alma. Alma minha que só deseja ter-te por perto, em meus braços. Porque quando em meus braços, me tens nos teus braços, daí então me tenho. Livre. Livre do peso do mundo e livre do meu próprio. E passo a ver tudo encharcado eteabraçoaindamaisforte, pois não quero que me vejas chorando. Não quero que me vejas assim tão longe, grudada em meu olho… quero que sintas o que morre e vive aqui dentro, porque os olhos só mostram o que se passa em pensamentos: admiração por me teres, medo de que não me queira.

Morte vida-vazio Morte

junho 2, 2010

               Aaaaaaaaaaaaaa, o vazio assim se dispersa, se enconde no barulho que sai da garganta sem nada como a cabeça como o peito. Mas mesmo com nada ainda dói… Então nada e vazio são diferentes? Nada é nada e vazio é dor, a dor do vazio é a dor da alma, é a condição do ser que não é nada – não é nada de não ser o nada, é algo. Por que nada não é vazio, é como cor, não como o vazio que é preto. Ou branco. Então a morte não é preta nem branca, é cor, é nada, vem antes do belo ou do feio. Ou depois. O vazio é vida, é meio, é corpo, carapaça. A vida é um “a” bem longo, é uma distração depois do “e” ou antes do “m”.

junho 1, 2010

               Tenho amor, amor, amor de sobra, amor pra dar, não pra vender. Por que meu amor, amor meu, não vale nada, tem bastante e é um pouco azedo. Ele é vivo, não é fresco porque fresco é morto na hora. Vive come mija, fede e dorme. E cresce. E morre. Eu também morro. E também vivo, como e sofro. Tô de jejum, mas sofro, sofro porque vivo e amo, amor vivo. Agressivo, doloroso porque não dou conta, não lido com amor sozinho. Por isso, meu amor, pegue meu amor, que você ele não morde, só beija, cresce e morre – depois de mim.

maio 31, 2010

               Mais uma vez a lua se esconde de mim. Mais uma vez tenho que fazer de minhas lágrimas, telescópio. Lente da alma, para quem sabe trazer-te numa forma que me traga sossego. Pois lembranças não me bastam para sufocar a tua falta – e sufocar aquilo que sufoca meu sono. Então que me sufoque a chuva de água salgada, e caia a enxurrada que cegará até a minha alma. Mas que venha a embriaguez do cansaço, dos soluços que exalam a vontade de me perder. Ou que de tantas gotas se faça pena, que dissiparão a fumaça que cobre a lua, teus olhos. Quero encobrir-te em minha alma, em minhas cobertas, em mim. Meu peito arde vazio, sedento pelo teu preenchimento. E tendo a ti, que eu pare de me contentar com as cinzas da lua, tão fugidias, que só brilham em teu reflexo.

Riso, esquecimento

maio 27, 2010

Dos meus pés insanos
tiro o meu espírito torto,
agonizante nos caminhos
meio alma, meio corpo.

Do riso faço esquecimento -
caem folhas da lembrança,
que apodrecem no meu peito
tombado morto sem vingança.

Caminho nesse breu, amargo
de que minha boca se fez suja.
E na luz, eu não consigo.
corro frouxo, com medo – liso.
No escuro tenho abrigo,
não vejo lágrima
que salga meu sorriso.

Mas meu fim eu já prevejo,
luz tamanha que não me lembro
minha linha vai pro brejo;
horrorizado largo o membro,
largo alma, largo corpo.

maio 26, 2010

               A alma se toca, se devora, se contorce numa autofagia permanente. Se toca e sente ser tocada, tocando a tudo menos ao próprio corpo. Por que pele não suporta tal vibração, tamanho crescimento. Uma hemorragia de espírito que, de tanto transbordar, mal se percebe o pouco de alma que sobrou na carne, ocupada com a dor das veias estufadas e do coração petulante. Mas alma foge por você estar perto e tão longe de mim, na distância de centímetros, de um dedo, de um fio de cabelo. No toque que faz sossegar o corpo – ou arder – que guarda o resto de fogo que não se dissipa. Resto de alma que morre no peito, que se corta por não ser cortada. Sempre. Sempre a buscar o resto que falta, que você guarda dentro, e num impulso estático tento alcançar. Ou ser alcançado.

maio 22, 2010

               Gosto de imaginar o futuro assim, no reflexo de uma xícara e outra, na fumaça do cigarro, na cor do meu próprio café. Preto. É isso, o reflexo inexistente do escuro, do caramelo dos teus olhos onde não me vejo. Neles entro e me perco, me calo, te busco: no fundo do claro e do escuro a tua alma. Refletida no brilho dos olhos e na brancura dos dentes. No canto do sorriso ou na dúvida dos ombros. Talvez eu não veja nada. Mas olhe para cima ou para baixo, condene ao ar ou ao chão. Mas não condene a ti mesma, pois estará condenando a mim também.

maio 22, 2010

               Eu disse que eram cotovias. Quis acreditar que eram cotovias. Mas não eram, e junto com a ilusão do dia, tu fostes embora. Rouxinóis. Eram eles que aclamavam a noite, e a tua partida. Pássaros das sombras que tomaram teu lugar, de bico cada vez mais afiado e canto cada vez mais doloroso quanto mais tua ausência aumentava em mim. Ah! rouxinóis, que não me largaram enquanto o sol não expulsava a noite. Zombavam do meu peito insone, que sentiu o coração cheio de… minhocas, a se arrasterem em minhas veias de grosso sangue, a serem devoradas pelos que têm asas, sem cerimônia. Isso enquanto olhava a lua, escondida pelas nuvens do céu e do cigarro, esperançoso de que se dissipariam, e esperançoso de te ver, refletida, não com meus olhos, mas com a alma, na poeira da lua.

Sobre o seu silêncio

maio 18, 2010

               Que se faça a calma. Que se faça o fogo que faz tremer, como no frio. Que se faça a frustração por viver num mundo onde matéria e espaço não se fundem. É o que ordena o seu silêncio, assim perto de mim. Silêncio que faz da pobre alma pensante valiosamente ignorante, leviana, pois com tamanha força impusestes o sossego. E, com uma tranquilidade incompleta, me contento com a impossibilidade de me misturar a ti. Mas roubo, por inveja, o ar que soltaste teu suspiro, ar que chegou onde não alcanço, no peito, dentro, que um pouco se juntou à sua alma, e outro ao seu sangue, percorrendo cada minúcia tua. Alma que choro para que exista em mim, pois, quem sabe, ao menos de forma etérea possa tocar onde ardentemente almejo. Alma com alma, com esperança que nos roubemos, por um segundo, deste mundo.

Opostos?

maio 12, 2010

               Ando em algum lugar, entre o preto e o branco, num extremo, perdido no meio da distância. Duplamente perdido, porque preto e branco nada têm de opostos – acho até que se confundem. Seja como for, perambulo entre uma cor e outra, uma luz e outra, entre sombra e sombra. Ah! doce sombra dos meu olhos, que não me deixa ver tons. Que se misturam como minha memória, onde feliz e triste são como vertigem. São minha queda nas lembranças, de bruços num chão de rosas. Espinhos. Cores… nada têm de único, nada de semelhantes. Nada de claro ou escuro. Preto, branco… só encontram lugar na burrice do ser humano, na vontade de abrigar aquilo que não tem lugar. Vazio, sublime. Ausência, morte.

maio 9, 2010

               Esqueças-me. Que então eu posso esquecer-me de mim mesmo. Mas teus olhos enxergam mais que a pele, teus ouvidos roubam mais que a fala. E assim fazes de mim óbvio e indefeso como uma minhoca, mole, transparente. Parece que gostas de me despir de minhas máscaras, e até acho que gostas do que vês – mas eu não gosto. Não gosto de mim mesmo, e me desespero quando percebes mais do que mostro. Pior quando descobres e me fazes entender o que nunca ousei tirar da escuridão. Seja flor, seja espinho. Então me sujo de terra, espero que não te magoes.

maio 9, 2010

               Minha paixão é piada, como minha vida. Daquelas já prontas, que se faz graça pela ausência dela. E de piada, minha querida, tu entendes. Só não sei se és comediante ou gente séria – daquelas que sabem demais só para esmagar direito.  De qualquer maneira, brincas comigo como gente grande. Arrancas pétalas ruivas da minha risonha rosa com uma facilidade dolorosa. E com mais facilidade ainda colocas de volta, com tua boca. Boca… donde saem essas palavras que me enganam tão bem. Que cobrem tuas marcas com o adorável cheiro do esquecimento. Ah! meu amor, enquanto me apareces sempre me banharás com teu perfume. Até eu descobrir que a rosa é plástico, e efêmero teu perfume – perenes são as dores que traz o cheiro de tuas marcas.

maio 9, 2010

               E agora te cortejo, como um dia fiz à lua. Pois ela se tornou suja pelo odor da memória. Por isso, trago das costas o peito marcado, mas também um coração, minguante na esperança. Esperança de um dia sentir teu brilho argentando os cantos mais escuros de uma existência empoeirada. Voltar com a alegria ofuscada de meus olhos, que agora só brilham de descaso e lembranças… Tristes. Lucio… dizem que é aquele que traz a luz. Acredito que é aquele que a espera. Então, humildemente, peço que me tire este pó, e que um suspiro seja suficiente para lavar este corpo, fazer emergir algo além de esperança. Espera.

Sobre o silêncio de agora

maio 9, 2010

               Por que foges? Por que matas? Por que sujas com palavras que são sempre fúteis num momento desse? Deixe, deixe que o silêncio grite para que eu possa senti-lo direito. Deixe-me ouvi-lo para que eu possa entender sua mudez, saber se ele me agrada. Se sentires constrangimento, fale, que logo partirei. Por que nada é tão belo quanto o silêncio consentido. Longe da agressividade das palavras, do cansaço do som. Longe da falsa euforia que teima em roubar a voz da quietude. Me mostre se gostas do silêncio de agora.

Sobre o silêncio de hoje

maio 7, 2010

               É pouco. É pouco o que sobrou do meu peito, na memória de alguns segundos que tão logo se passaram. Que escaparam como areia em punho nesse presente escorregadio. Pois o presente do sentimento é grande como a duna, e leve como o pó. Que quando pelo vento dos segundos se dissipa - nos instantes em que tento fazer jorrar voz do meu peito - esconde-se nos cantos mais escuros da minha fala, que da lembrança tão frágil tenta buscar a luz que foi, agora pouco, fogo. E então o silêncio de hoje: por impotência ou conveniência. Por que o que resta para a fala é escasso, e dela para os murmúrios, frio. Inevitável é o medo, ou melhor, a certeza da mediocridade que brandirão minhas palavras. E sei, sei que tal banalidade se torna ainda mais ridícula a cada espaço, quando dos ventos passa para os ouvidos, dos ouvidos para a mente e, quem sabe, da mente para o coração. Me refugio no silêncio de hoje —

Sobre o silêncio de ontem

maio 5, 2010

               Palavras são brutas. Não sempre, mas quando usadas na sua presença. Por isso me refugio aqui, no campo das palavras escritas, onde são silenciosas e eternas pela magnitude de sua efemeridade. Por que quietas não dizem nada, logo falam tudo que quero dizer, encobertas pela essência estática e metamorfa que a acompanham. Longe da devassidão das letras urradas e frases imprecisas. Daí meu silêncio. Inevitável. Pois forças me faltam para aguentar a frustração que trazem os ventos das palavras ditas, cortantes pela leveza, pesadas pela falta de destreza. Destreza que, aliás, me falta na hora de sujar estes papéis de azul. Então deixe que meu silêncio perdure, enquanto mais borrões da minha alma são desenhados por aí, e quem sabe os verá. Pois não ouso lhe mostrar os mais belos e impressionantes, e sim aqueles que se parecem com meu espírito e contentam meu peito – tortos e vergonhosos.

Complexidade

maio 5, 2010

               Faça-me parecer burro. Faça-me sentir a burrice, mas com complexidade, não ignorância. Por que complexidade rima com perplexidade, e ignorância com… ignorância. E esta é chata, simples, e simplicidade não mais me evoca graça. Por isso mostre-se complicada. Mas ainda tem um problema: deve ser tão complicada que faça que pareça que eu entendo, como quando se entende um poema não pelas palavras, mas pelo som. Por que, afinal, não gosto de ser todo burro.

maio 5, 2010

               Diga que me ama. Não uma vez, mas quantas puder. Por que, afinal, é difícil me convencer. Não de me deixar envaidecido, mas de me fazer conformar com algo além da mais pura mediocridade. Mediocridade das minha palavras, da minha solidão. Bicho assim não tem quem ame, por isso  duvido que você me convença. Entao, se quiser, fique à vontade. Mas não se esqueça de um detalhe: eu me esqueço rápido.

Vaidade

maio 2, 2010

               Num olhar automático e cheio de esperança, ela olhou seu reflexo como se perseguisse um vulto. Mais uma vez, durante uma fração de segundo. Um terço. Pouco importa o tempo contado, e sim o tempo sentido: nesse curto intervalo ela se sentiu presente, viva, e a noção de centésimos se confundiu com a ilusória longa duração da vida. Pois a vida dura o quanto nos olhamos. Pelo menos para Amanda: todo resto é uma constante incerteza. A imagem capturada no passado mais próximo é a única segurança da sua existência, efêmera e estática ao mesmo tempo. Qualquer outro momento é constantemente dilacerado pelo vento, pelo espaço, pelo tempo, tudo escapando ao seu olhar. Por isso Amanda procura em qualquer canto, qualquer olho a sua presença. Não existe algum traço de vaidade em seu gesto. É simplesmente a tentativa de posse da sua efemeridade, ou melhor, a resignação em relação à sua essência mutante, e como um pedido de socorro, se olha, se faz, nesses poucos instantes que agarra alguma certeza, viva, como Amanda.

abril 30, 2010

Apagou o cigarro
o vento passou

O vento passou
apagou o cigarro

Soneto da condição

abril 28, 2010

Depois de todas essas minhas faltas
poderia dizer que a minha calma
(somos, todos, simples pobres peraltas)
é algo além da máscara d’alma?

Se na minha sondagem, a mais baixa,
vejo sempre este mesmo recado
(dentro, na opaca ilustre faixa)
“trago o coração ensanguentado”.

Pois desejo é quente como sangue
que jaz do peito, e se faz infame
como todos de alma se faz crer.

Então pálido o coração segue,
sem ter a nenhum outro a quem ame
além da única que não se faz ver.

abril 27, 2010

Eu me afogo
mas não nado.

Dizia o cozinheiro.

E se o fogo
estiver ao lado?

Morte?

abril 26, 2010

               Branco. Um branco escuro, áspero de tão liso, com um lindo potencial de ficar parado. E por isso é levado, por isso é preto… Estou falando da morte. Mas não quero pensar em coisa tão bonita. Porque pensamento é vida, e vida é ciclo, círculo. Como quando agente fala. Mas tudo bem, pensar nela não a estraga. Até porque não tem como pensar na ausência de pensamento não é mesmo? Pelo menos dá para se sentir alegre, aliviado, iludido com a felicidade de não mais precisar, não mais desejar, por ter. Felicidade de ter por não mais desejar. Tudo que queremos é não querer mais. Não desejar nada. E isso é morte. Todos anseiam pela morte sem saber. Mas como vivemos, pensamos, logo não a entendemos - que é nela a vida que se quer. Pois a vida é medo do que não se conhece, é medo de qualquer coisa, até do que queremos.

abril 24, 2010

               Por favor, não deixe que meu sangue se confunda com minha alma. Por que alma ensanguentada é pesada e quente, ardente. Queima no peito. Pois é do coração que vem esse sangue. Do coração despedaçado pelo vento das últimas palavras e do vão da porta que ela deixou aberta, de onde entra muita esperança, mas ainda mais saudade. Saudade da calmaria que um dia ela me deixou experimentar. A esperança então é inevitável. Esperança assim suja e pobre, mas grande. Como minha fraqueza, que me deixa arder com esse frio – ou pior, me deixa ainda de pé, porque a angústia, apesar de tudo, é mal concebida. Dor mal sentida, morte mal declarada. Então ando como um inseto, esmagado bem na vontade de viver e de buscar felicidade. E vivo, vazio, aguardando a esperança queimar primeiro minha alma, depois meu corpo.

Sobre o silêncio de outro dia

abril 22, 2010

               Cale-se agora e deixe que meu silêncio fale por enquanto. Por que quero gritar as minhas entranhas, e pra isso preciso do seu silêncio, do meu silêncio. Mas a verdade é que tal coisa não existe – meu coração faz barulho, meus pulmões… Talvez seja isso o que eu quero: o silêncio das gargantas para que você possa ler os barulhos da minha sutil explosão. Decifrar a minha respiração acelerada ou entrecortada, meu coração ofegante ou calmo, sereno – quase parando. Daí então meus suspiros poderão dizer o que minhas palavras ordinárias não conseguem. E quem sabe ouça o tremor dos meus lábios por aquilo que não sei o que é. Acho que beijo. Talvez algo mais, como a mistura da minha alma à sua. Mas o som das línguas se tocando parece me bastar por enquanto. Pois é quando arranca meu silêncio, e me concede o seu. E espero que assim, roubando o meu meio, consiga entender o meu começo, ler meu sossego e compreender meu ardor.

Desconexo

abril 21, 2010

               Tenho asas nos pés. Ando levado pelo vento, como uma pluma. Meu corpo se projeta para frente, numa facilidade mecânica. Tudo isso é simplesmente… aterrorizante. Meus pés não voam, só parecem porque não os sinto ao chão. Mas eu ando, obrigado, como a pena que é tirada do seu repouso. Aliás, sei nem se meus pulmões inflam… todo esse corpo parece uma desconfiguração de carnes e ossos. Vazio. Tão vazio que nem meu grito ecoa nisso que prende minha alma. Agonizante. Meus braços me trairam. Meu olhos me trairam. Não consigo expulsar terror pelo olhar. Acho que esse corpo não me pertence. É o que parece… ou pelo menos não consigo usá-lo. Afinal, tudo que consigo é mostrar uma completa letargia. Pois de que me serve a carne se meu espírito a expulsou de seu domínio? Então vivo com essa dor sufocada, sem defesa, sem alívio neste mundo, no qual tempo e espaço não mais me ajudam. O barulho só me lembra que sou mudo, e me envolve numa cortina de impotência. Resignação. As cores me mostram que não tenho alguma. Transparente. Infelizmente só de mim para mim. Pois seria melhor sumir, sair da vista de todos, vagar no nada. Ser nada.

abril 19, 2010

               Vem sem medo que te quero frágil, sem saber o que fazer. Como eu. Pois pra fazer não precisa saber. Como acreditar para querer. Então vem azul como te faço, te sei, te acredito, te quero. E embargo teu pranto, que é sempre meu pranto, que deles faço nosso canto. Encanto, manto, santo. Faça de tudo a mim, e a mim o que quiser. Pois melancólica me traz sossego. Só não vale sorrir, que do riso já me usei até doer. Virar dor. E é dor assim sombria, sem beleza. Por isso me afogue em suas lágrimas, mas não me canse com seu sorriso.

O romântico e o amor

abril 18, 2010

               O amor pelo amor. Esse é o lema de todo romântico, desiludido ou não. Sem dúvida se torna indispensável a coisa amada, humana ou etérea, para tornar a busca agradável e sustentável – não menos fervorosa. Por que o ser romântico encontra a amante em todas as suas formas, texturas, sabores, sons e perfumes. Como um neurótico. Mas não vamos confundir tudo. O romântico não se torna um louco, que tem para si e para o mundo só a admiração pela coisa. Diria até que apesar de imprescindível, a presença ou a existência é o de menos. Toda fixação é uma simples manifestação do amor, pelo amor. A necessidade de adorar todas as maneiras de aparição desse sentimento, que é a sua razão de viver. Propondo dialeticamente, o romântico é a síntese entre a contemplação abstrata e a pessoa amada. Ou em outra forma de pensar, é a coexistência dos dois. Pouco importa. O fato é que a ausência de um transforma-o num frustrado-angustiado e suicida, ou num não-romântico.

[Vejamos: a pura abstração compila numa enorme incongruência com o mundo, delegando à morte a única chance de consolo e esperança; enquanto a simples preocupação apenas pela matéria faz do homem (desculpe o termo, a ignorância e egocentrismo) um babaca]

               Por isso o romântico, seja como for, tem por essência a adoração do amor, que é dilacerante e abrangente (e maravilhoso), ou é um charlatão. No entanto, nos pegamos, não poucas vezes, num erro terrível: confunde-se a sua própria essência amadora com o material, sendo a coisa amada a única razão de se viver. E o sossego só se dá pela presença e retribuição, fazendo das lembranças e metamorfoses meros deboches e escarros da existência “solitária”, criando uma enorme dependência, inevitável. Assim, o amor não se sustenta, o romântico perde a essência e identidade. Sendo tudo besteira ou não, tudo que peço é que não se misture apaixonados à românticos.

Brilho dos olhos

abril 18, 2010

               A noite cai e as flores continuam lá fora. Junto com a lua chega a hora de dormir, e como um cadáver as pálpebras caem lentamente, como no mar. Mas o simples fechar dos olhos – eu diria até uma piscada mais longa – traz a companhia indesejada na implacável solidão da noite: a angústia. A boa e velha angústia, companheira inseparável, que de dia só ronca e de noite só grita. Começa a luta. A tentativa vã de estancar a hemorragia com os dedos fracos. Jorrando sangue entras as mãos que não se unem, ou os dedos que nem sequer têm força para se fecharem. Então abre os olhos, que te trazem à superfície depois do infindável mergulho na alma. Pois pelo olhar se solta um pouco da dor. Cheio, pesado. E logo se vai mais uma tentativa de sumir no sono. Já de manhã encontrará a implacável falta de solidão do dia. “Seus olhos brilham”. Sim, não duvido. Pois o orvalho também brilha depois de uma noite congelante. A flor que não pôde se abrigar sobreviveu mais uma vez ao frio. E do calor que derrete a superfície da alma, perdura a lágrima, constante. O brilho dos olhos.

abril 15, 2010

               Apareces diferente, no deserto desta multidão – como água numa aridez de barulho e burbúrio. Deserto porque o turbilhão me faz lembrar da condição maior da solidão. Mas, como disse, me apareces diferente: não vi teu corpo, nem sequer ouvi tua voz. Vi apenas teus olhos, atentos, sedutores, imperativos. Pois quando de mim fazes alvo, beijas meus olhos com teus olhos; como se quisesse me prender, emergir, desmontar. E o faz. Concede aos segundos que me tens refém, imortalidade. Por isso és água, no deserto que materializas: as pessoas, o barulho, o chão são reduzidos à areia, poeira insignificante, e surges preciosa. E como me agrada essa nova escassez!, onde perduras tu, e eu, e ponderas minha mediocridade. Pois saibas que passas longe, mas teus beijos vão além dos meus olhos – eles cravam teu espaço na terra infértil da minha alma. Então paro e penso que te quero, assim longe, pois então não penso que me queres perto, ou melhor, que te quero perto. Enquanto continuas sempre diferente, sem dor.

abril 14, 2010

               Concedo-lhe meu amanhã. Todos. Não o passado porque tenho medo de sua força. Por isso o amanhã, onde, aliás, você está. Ele é seu, e somente seu, porque se em minhas mãos ele sumiria. Teria sido entregue ao pó. E com todo fervor que ainda resta, prometo-lhe cada momento de agora, pois ainda não apareceste para mim. Mas venha logo, antes que me lembre que o presente é fugidio, e que é so passado. Então venha antes que o passado seja grande demais, e me tome o futuro, que é seu.

Hora de acordar

abril 13, 2010

Pois ja é hora de dormir, porque a vida não espera.

E agente não espera a vida.

Conversa de botequim

abril 13, 2010

               Façamos um pacto, o que acha? Um pacto de compreensão total, fundado na completa incompreensão. Ele funciona da seguinte maneira: eu falo de café e cigarro, você responde salada. Mas não esqueçamos uma condição, imprescindível: eu finjo me ter feito entender; e você, finge concordar – respondendo salada. Então, o que se deve seguir é o silêncio, nem que de um segundo. E assim, teremos nossa tão estimada compreensão, baseada no silêncio completo e constante, com alguns grunhidos, e alguns segundos de plenitude. Prazer em conversar.

Kitsch

abril 11, 2010

               De tal forma se foi meu animismo. Como uma vela que se apaga com o vento da decepção. E assim, se esvai o calor, que era pobre e valioso. Mas sobra o vento, e o breu. Pois deles tiro minha força pra escrever, já que nada mais queima. O vento que ruiu decepção, mostra a face do desespero. E o breu que podia ser calmaria, se faz também desespero. Então, com palavras de desespero, tento fingir algum preenchimento - e chamar pela alma perdida.

Causalidade

abril 9, 2010

               Pare. Pare tudo. Pare porque o tempo enche meus sentimentos como balões. Que voam. Cada segundo mais leve, cada segundo mais insignificante. Minha vida se diminuindo nela mesma. Os dias esfriando os fervores das minhas paixões, minhas dores, que são fadadas a se tornarem fração cada vez menor desse mar gelado que é a vida. Esse mar de esquecimento que não pàra de crescer até tudo se findar. Eternizar na ausência completa. E, onde a matéria e o tempo não mais esmagam, o que se eternizará é cada dia mais leve. Por isso peço que pare. Porque não quero morrer agora, mas também não quero sumir em mim mesmo.

Saudade

abril 9, 2010

De tudo fica um pouco,
e o pouco que fica
é muito.
Quando o pouco do pouco
é tanto,
do que se fez pranto, se faz canto.

E da semente que não germina,
cresce flor do sonho
que me deixa acordar,
ainda perfumado,
sedento por dor.

Mas pela boca tenho o ouvido.
E da voz fina se faz rouca,
do canto gago, libido.

Como homem ainda esqueço,
que do meu grito
volta ainda ruído.
E do perfume que sigo,
esqueço do meu próprio cheiro:
que também ficou um pouco.
E esse pouco também é muito.

Quanto mais esqueço meu ardor
mais se afasta o sofrimento.
E da garganta, arranco o vento,
sem mais dor,
ainda lembro.
Dior Addict
(suspiro)

Meu cigarro de cada dia

abril 8, 2010

               Tremo. Sim, minha mão. Ela não pàra quieta. Deve ser o cigarro – acho que preciso de um agora. Ele me acalma a vida. Ou rouba ela de mim, faz de minha calma refém. Mas prefiro pensar que a vida é assim, uma tremedeira, e que passa isso pras mãos. Gosto de pensar que tremo porque ela me deixou. E como me deixou, eu fumo. Logo tremo. Então me deixa fumar em paz, até porque fumo muito. Pois os cigarros me fazem esquecer quantos dias tem uma hora – e quantas horas tem essa vida.

E te chamo em silêncio

abril 8, 2010

               ’Longe de ti tremo de amor. Do seu lado… do seu lado me calo’. Aproveito e finjo também. Mesmo assim, não sei como não percebes. É ridículo. Deverias prestar mais atenção… pois não vês que viro quando respiro e tremo. Quando não respiro. E olho pra baixo quando fala, porque entras em mim como água em terra seca. Mas não posso, preciso ser seca, seca e dura, mesmo que seja pura água? Inundada pelo desejo de confunfir meu corpo ao seu corpo. Sempre. Como… – Como não percebes que sento assim meio longe porque te quero perto? Que paro de falar e digo.. não sei… por ser tomada por essa ilusão de um beijo; pela esperança da sua boca rasgando a minha boca com teu jeito sutil. Que tampo teus olhos que guardam o maior perigo que já vi. Quanto perigo guardam teus olhos… Diga! Diga porque não é possível! Diga de uma vez que não me queres mais ou que tens medo. Sim… sim! Quero ser tua. Não.. quero ser parte de ti, como cruz ou coroa. Não sei, não importa… Só sei que não te aguento longe, não me aguento longe. –

Fraqueza na fraqueza de poetar

abril 6, 2010

               Havia tempos, espero e acredito, em que o simples fardo de estar se consumindo, queimando e se misturando com e por outro causava algo. Algo como paixão, amor. Talvez não tanto, mas imbuía cacos além da superficialidade, do envaidecimento. Eram tempos em que a poesia significava alguma coisa a qualquer um, não pelo que se entendia dela, nem pelo que se conseguia construir, mas pela simples demonstração de combustão da alma. Hoje, vejo só ouriços, protegidos numa casca de insignificância do espírito e banalização do ser. Do que mais importa no ser. O que de mais valioso essa triste essência humana nos permite ter: a complexidade, a paz do fervor, a bagunça da ausência, a intensidade, a vontade de força e de fraqueza, a entrega… tudo simplificado de maneira mais ou menos ridícula na poesia. Não digo poesia escrita, e sim antes disso. Antes mesmo até do sentimento, do drama. Digo algo que vem de fora, no ato de olhar e captar o que aparece. A apreensão poética. A concessão de algo mais que beleza ou funcionalidade ao que se observa, atribuir esperança, identificação ou diferenciação. Lembrança ou perspectiva. Valor interno.

                Quem sabe tudo perdeu a importância, por ter coisa demais. Ficou tudo mais leve. Não sei. Só sei que, nesses tempos de outrora da minha imaginação, o que eu escrevo e sinto talvez significasse algo além de banal ou dramático.

abril 6, 2010

Em meus olhos,
lágrimas
tão sujas
que me apareces
perto
de tanto
me pareces dentro
como vento
que abriga
meu peito
pranto
perto
dentro
de tão longe.

Amor

abril 6, 2010

Morria em mim numa rapidez de vida.

Nascia em mim numa lentidão de morte.

Vertigem

abril 5, 2010

Pelas juntas
me desmonta
me remonta
giro grosso
da minh’alma
na lembrança
na esperança
no desfruto
da essência
de ser homem
de ser fraco.
A vontade
de jogar
de cair
sem embaraço
sem temor
de ser frágil
de ser maço.

Pois vertigem
porque quero
porque fujo
pois me tiro
do controle
de ser forte
de ser duro
sou criança
já não aguento
mais bagunça
mais ser homem
e me jogo
e me perco
do controle
pois eu fujo

na vertigem,

na vertigem,

quando escrevo.

Desalento

abril 2, 2010

Vem pra cá
meu bem,
é de lá
quem
não tem
ninguém
sendo
de lá
fico aqui
de pé
e você
a se sentar
vem
pra cá
de pé
a te velar
admirar
cantar
me alcalmar
me devorar
sossegar
vem
pra perto
porque
trago
peito
aberto
esperando
afago
amando
doendo

– vem logo
que não é
o coração
que se cansa
e sim minhas pernas
de criança
então saibas
meu bem
que não é
dessa terra
que tiro
minha água
mas do coração,
e um peito
desvão

guarda mágua

—- pois venha,
antes que se canse minhas pernas,
seque meu coração,

——- e, eu, volte, a me sentar, lá, onde, não tenho, nem amo, ninguém.

abril 1, 2010

Eu gosto de lírios.
Ela disse
que é morte
porque um lá
cantou com lírios
e morreu.

Eu nem cheguei
a comprar
- morri.

Mensagem para você

março 30, 2010

               Tinha dias que de noite fazia sol. Eu lembro desses dias, que de dia era bruma.  Fazia luz nos meus olhos o brilho no canto que só via o canto. E o canto do meu olho era só o canto cego do meu olho. Mas no canto batia minha alegria, pulsava minha vida, jorrava euforia. Uma euforia assim, calma e serena, como teu olhar. Olhar do qual a lua se embriagava, e eu me embriagava de prata da lua. Do seu olhar eu só me embriagava de saudade. Você me perguntava “tudo bem”. E eu esquecia o que era bem. Existia assim, você e um tal, acho que chamava felicidade. Mas eu respondia “tudo bem…”.

Escritório

março 30, 2010

               Nina hoje foi trabalhar. Mais que isso. Foi lá ficar quietinha e sorrindo como sempre. E pra minha alegria, eu sei que Nina carrega um pouco de mim. Acho às vezes que é feita só de mim. De tanto eu que quando do meu breu tudo pereceu, acho que fui Nina. O pouco que sobrou. Por isso que com quem Nina trabalha espero que queira Nina muito bem, e de mim.

março 28, 2010

Escrevo enfim assim
como se só poemas
não fosse o fim
porque talvez
tá em mim
daí então
o fim
.

Ausência

março 28, 2010

               Chuvisca enquanto o sol bate no meu rosto. Há quem diga que é lindo. Eu gosto. Simplesmente me vejo nesse tudo que é nada. Chuva mais sol. Água mais fogo. É vida e morte ao mesmo tempo. Como cadáver com sangue quente matando, e lembranças e sentimentos levantando só pra se matar. Pois bem, não preciso disso pra me lembrar o que faço aqui. Porque parece parte do próprio esquecimento que cá estou para nada. O esquecimento não mais traz riso. É nele que a lembrança me suscita de maneira mais ruidosa, silêncio da alma, turbilhão vazio. Cada dia fica mais claro: a corrente é a feita de ausência: de sentido, de amor.

março 28, 2010

               Ando no metrô. A catraca logo pergunta. Tudo bem? Sim, tudo… Logo no giro percebe que não. Desço a escada rolante, ela é tranquila, boa pra mim. Entro, sento. O vidro alega, me chamando atenção com meu reflexo: “Você não ta bem cara…”. De que importa? Me deixa em paz, tô seguindo meu rumo. Caminho pela rua, dobro a esquina. Casas. Nestas casas, flores. As mais chatas. Insuportáveis. Insistem em jogar na minha cara: “…” Parece que querem jogar alma no meu peito. Sofrimento. Viro o rosto. Gargalho, como quem ri para não sentir. Ou por sentir demais. Quem disse que rosas não falam? Tagarelas, da pior espécie. Abro a mochila, música. Chico Buarque. Passos, passos, preciso chegar em casa. “Cecília”. Choro. “Samba do grande amor”. Mentira! Mentira que é mentira! Ando, troco olhares. Sorriso. Pareço louco, sorrindo pra coisas que não falam. Pessoas são coisas… Chego na portaria, porteiro, sorriso. Mais uma vez dando uma de louco. A loucura é boa. As pessoas tão la, não fazem mal nenhum.

               Abro os olhos. Era sonho. Levanto. Estranho, muito estranho. Como pode uma coisa dessas? As coisas não falam. Foi bom enquanto durou. Mas logo a verdade aparece pra mim. A verdade é diferente: as coisas não falam, gritam. E logo o espelho me faz lembrar disso: “Ainda ta vivo rapaz?!”

As coisas

março 28, 2010

Move-te ausente
assim soberba e blindada
dos perigos do ar.

Mergulhada em abstrações
corres parada,
num impulso estático,
como quem foge
da boa e velha novidade
que ainda te pega
surpresa.

As coisas,
que são coisas
porque não te toca,
que não toca
porque não tem nome,
que não tem nome
porque não aflora.

Mas tem forma,
espinho,
que não sabes
se é cacto ou rosa,
e não entendes
se é pacto ou prosa.

Mas que te joga
nesse longe-do-meu-lado
onde a dor do vazio
solta o grito desbocado.

E eu, no-seu-lado-bem-distante
ainda clamo
que estás ausente
assim soberba blindada
dos perigos do ar.

Noite dos estrelados

março 28, 2010

               Vamo!… Encara a lua, a escuridão na luz do seu quarto. A noite é uma agonia, fato. Não adianta apagar a luz que a escuridão não vai embora. Então aproveita: morde essa maçã com sua boca sem dente. Costura o peito com essa agulha sem linha. Vai, vai lembrando o dia, o passado, cada mal cheiro que guarda escondido. Lembra até não lembrar mais. E agarra a angústia. Angústia insuportável. Dor pura… tão limpa que não tem como enterrar.

               Solta o grito rouco que é inevitável. Arranha o peito na esperança de arrancá-lo fora. Ouve a respiração que passou o dia, agonizante e ansiosa, na espera da dor maior, para quem sabe conseguir acabar com tudo. Sinta a angústia sufocando o sono, que era sua única fuga. E se por acaso adormecer, cruze os dedos para não sonhar – e não acordar desesperado. Se conseguir, espera a vida passar. Escreve. Acho que tem tradução. Três palavras na verdade. Música, Whisky, cigarro.

Desgosto

março 28, 2010

Vamos começar um samba


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